De como vamos todos ser Empresários


Este texto dá continuidade à saga iniciada com o post “Passos: putativo Nobel da Economia?” e que foi desenvolvido no post subsequente “Porque razão os neoliberais preferem o Desemprego à Inflação?“, constituindo, portanto, a parte III dos documentos anteriores que, para correcto entendimento, devem ser lidos pela ordem aqui apresentada.

E acrescenta um elemento sobremaneira relevante à caracterização científica da nova teoria económica apresentada, e tão bem defendida, por Passos Coelho. F. von Hayek propõe uma nova divisão do trabalho: isto para Coelho é cu e o Hayek é na verdade um neo-Marxista, suspeita Passos, que vai muito mais longe definindo novas fronteiras para a semântica de Darwinismo social e da teoria das divisões, em geral.

Com efeito, Passos propõe, ao mesmo tempo, uma nova divisão do Capital. Levando às últimas consequências o seu conceito de Investimento de Trabalho à Borla, referido na parte I, o nosso primeiro-ministro inventou, out of the blue, a forma prática de materializar isto, já que não é de esperar a colaboração voluntária das vítimas, digo dos Investidores. Vejamos com mais detalhe como este desiderato é atingido.

É preciso dinheiro para a Economia real: todos concordam! Mas, parte do dinheiro anda a ser “investido” em jogos de azar nos mercados puramente financeiros. Outra parte do dinheiro, menor mas igualmente importante, tem dono e não é para “desbaratar por aí” em Investimentos com risco, como Empresas e afins. Os Bancos estão muito ocupados a mascarar as contas e a disponibilidade de tesouraria a que estão obrigados. E não querem ficar com “stress”, que não é para isso que lhes pagam. Portanto, como fazer? Onde ir buscar o dinheiro que é necessário para injectar na economia de modo a que esta retome? É aqui que reside a genialidade de Passos, neste domínio monetarista. Impedido de criar “moeda” Passos desenrascou, à boa maneira portuguesa, duas soluções aplicáveis de modo cumulativo e em simultâneo.

Desde logo alterar a legislação laboral. Uma vez que o trabalho precário do tipo “falsos recibos verdes” se revelou insuficiente para financiar as empresas – que, deste modo, fogem legalmente aos impostos, não pagando, nomeadamente, a TSU (taxa social única), com a inevitável consequência de descapitalização da Segurança Social – há que aumentar o seu número:

– Quantos mais precários houver mais baratos são os salários e mais Capital fica nas empresas, sob a forma de fuga legal aos impostos e contribuições para a Seg. Social. Aí está uma maneira prática de injectar dinheiro nas Empresas e de baixar para 0% (zero por cento) a taxa social única. Passos tinha-o prometido, ninguém estava a ver como é que ele ia conseguir, até parecia que tinha desistido da ideia e, eis senão quando… Passos tira um Coelho da cartola: e muito dinheiro da carteira dos trabalhadores que, assim passam a financiar a sua própria precaridade e mais que provável Desemprego a Prazo. Outro conceito novo do Passos que vem substituir a obsoleta ideia do Trabalho a Prazo. Genial, até nos mais pequenos pormenores.

Em segundo lugar, fingir que cria um Programa de Apoio à Criação de Emprego, traduzido na comparticipação do Estado no pagamento dos Salários dos trabalhadores entretanto despedidos em resultado da implementação das medidas referidas no ponto anterior. Outra ideia genial. Quem se vai atrever a duvidar da bondade da ideia de apoiar a criação de emprego, nomeadamente Emprego Jovem?

Aí está! Ninguém! Genial mais uma vez: despedindo os actuais empregados poupa-se muito dinheiro às empresas (outra forma de investimento) que passam a poder contratar jovens, por um salário muito inferior e ainda por cima comparticipado e sem TSU!

Comparticipado por quem? Pelo dinheiro dos Impostos dos cidadãos que pagam Impostos. Isto é: os trabalhadores, uma vez que os outros têm o dinheiro a bom recato em off shores ou mentem nas declarações de rendimentos! Genial de novo! Vão ser os trabalhadores a investir nas Empresas, substituindo a Banca e… os próprios Empresários!

Digam lá! Isto é genial ou não, porra?

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4 thoughts on “De como vamos todos ser Empresários

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