Gordinhas ou escritorazinhas?


As escritorazinhas e as outras

Serve esta crónica para retratar e comentar um certo elemento que existe frequentemente em órgãos de comunicação social e que responde pelo nome genérico de “Escritorazinha“.

A Escritorazinha é aquela intelectual companheirona que desde o liceu cultivava o estilo “eu é que sou boa“, tinha graves défices de atenção por parte das outras raparigas, era usada e abusada pelos rapazes e os professores teimavam em dizer-lhe que tinha um belo futuro como escritora, só porque era boa de pernas. Ora acontece que a Escritorazinha é geralmente burra e sem ideias, sempre pronta para escrever asneiras e alinhar com a malta em jornais mais sensacionalistas que a revista Mariana, para além de escrever livros onde nem sequer sabe descrever propriamente uma personagem, e raramente os seus escritos se tornam apetecíveis a alguém com meio palmo de testa, a não ser em noites longas regadas a mais de sete vodkas, nas quais o desespero comanda o sistema intelectual, transformando qualquer Pipoca Mais Doce numa Bessa Luís, mesmo que seja uma peixeira com bigode do Mercado da Ribeira.

A Escritorazinha é porreira, é fixe, é divertida, quer sempre ir a todo o lado e está sempre bem-disposta, portanto a Escritorazinha torna-se numa espécie de mascote do jornal que todos protegem, porque, no fundo, todos sabem que ela já foi comida por muito barão dos média, e no fundo, alguns até têm um bocado de pena dela, e uma grande dose de remorsos por já se terem metido com a mesma nas supracitadas funestas circunstâncias. E é assim que a Escritorazinha acaba por se tornar muito popular, até porque, como quase nunca escreve nada de jeito, está sempre disponível para os mais variados Órgãos de Com. Social, nem que seja o jornal Sol.

À partida, não tenho nada contra as Escritorazinhas, mas irrita-me que gozem de um estatuto especial entre os média. Às Escritorazinhas tudo é permitido: podem insultar os outros nas crónicas, processar em tribunal quem vai contra as suas ideias, consumir cocaína, podem inclusive ir a programas dizer que só têm 3 ou 4 dias para preparar a sua crónica, por isso não lhes podem pedir mais do que aquilo que escreve, porque como são do “grupo”, toda a gente acha muita graça e ninguém condena.

Agora vamos lá ver o que acontece se uma escritora a sério faz alguma dessas coisas sem que surja logo um inquisidor de serviço a apontar o dedo para lhe chamar calaceira, irresponsável, pouco profissional e até mesmo burra. Uma escritora a sério não tem direito a esse tipo de comportamentos porque não foi levada ao colo pelas cunhas: é uma escritora e, consequentemente, se não consegue preparar uma crónica por semana, é imediatamente despedida. E o que mais me irrita é quando as Escritorazinhas apontam também elas o dedo às escritoras a sério, quando estas se comportam de forma semelhante a elas.

Ser escritora a sério dá trabalho e requer inteligência e sagacidade, para além de muita cultura. Que o digam as minhas amigas escritoras a sério, que foram vendo a sua reputação ser sistematicamente denegrida por dois tipos de pessoas: os tipos que nunca conseguiram que elas fossem trabalhar para os seus jornais e as Escritorazinhas que teriam gostado de ser convidadas para esses mesmos jornais, mas só conseguiram depois de se oferecerem. Uma escritora a sério não pode escrever sobre tudo, sob pena de censura. Já uma Escritorazinha pode dizer e fazer tudo o que lhe passar pela cabeça, porque conquistou um inexplicável estatuto de impunidade.

Porquê? Porque não é vista como uma escritora? Porque todo têm pena dela? E, já agora, porque é que quando uma Escritorazinha debita merda, as explicações bacocas para o sucedido são aceites sem despedimento, mas quando é uma escritora a sério a escrever sobre algo inoportuno, ninguém se coíbe de comentar:

Como dizia o François René: «O escritor original não é aquele que não imita ninguém, mas sim aquele que ninguém pode imitar.»

E quanto às Escritorazinhas, o melhor é arranjarem outro trabalho.

Ou um frasco de cianeto.

Ou as duas coisas.

NB: O texto está assinado, acima, mas gostaria de deixar claro que subscrevo na íntegra o seu conteúdo!

João de Sousa

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19 thoughts on “Gordinhas ou escritorazinhas?

  1. Fui ler o artigo da MRP mas a questão não está no artigo em si mas na lógica da resposta que ao combater uma opinião “infeliz”opta pela mesma abordagem. Não podemos combater uma má opinião com um artigo crítico que se baseia na ofensa pessoal e na insinuação. Assim colocamos-nos todos ao mesmo nível…

    • Creio que não andaria longe do espirito do autor da resposta dar a provar à autora da ofensa algum do seu próprio veneno. E sem incluir nada que não seja do conhecimento geral, fê-lo com grande eficácia, como comprova tudo o que aconteceu a seguir.

      Tendo lido o artigo inicial, certamente a Catarina será sensível aos insultos e afirmações perigosas que encerra.

      Como a resposta e as pelo menos 300.000 pessoas que a leram, foram suficientes para dar que pensar à autora da barbaridade inicial, a pontos de a fazer vir a publico apresentar desculpas a quem se tenha sentido ofendido, e eu sou homem mas também faço parte deste grupo, dou-me por bastante satisfeito com o resultado.

      E a MRP continua a não estar desculpada
      João de Sousa

  2. Há um ditado popular que diz: “Quem com ferros mata, com ferros morre”… E assim foi ou pretendeu ser esta defesa em nome das mulheres que foram ofendidas. Facto é que os argumentos usados para a defesa foram os mesmos usados para o ataque, e culminaram na troca de insultos entre pessoas civilizadas, negando uma crítica construtiva e escolhendo a agressão e o revide de má educação, onde os intervenientes não debatem pessoalmente os argumentos (ofensas) e os trocam (arremessam) em público. Terão a secreta esperança de que, tal como nos circos romanos, o público exija o polegar virado para baixo para ordenar a decapitação das pessoas como técnica válida para as calar e impedi-las de publicar o que lhes pagam para escrever e que muitos lêem? Porque a ideia de publicar é isso mesmo: tornar público. O público tem sim o poder de escolher: não consumir aquilo que não têm crédito. Seja lá de quem for… até porque já dizia a avozinha:
    “Palavras loucas leva-as o vento”, e é verdade porque aqui na terra há uma alma que passa os dias a falar com o mar (ou com as rochas, a areia da praia ou o céu pois não consegue angariar assistência nem apoiantes senão entre os elementos da natureza) e ninguém publica, ouve ou regista o que diz, ninguém grita: morra, morra o louco!

    • Cara Mafalda,

      Até lhe daria razão se considerasse a MRP uma pessoa civilizada. O que não é o caso. Sendo assim, tratou-se apenas do legitimo exercício do direito de resposta, realizado por um homem, em nome das pessoas decentes e civilizadas, a uma demonstração de incivilidade e de despeito em estado puro.

      Como não sou o autor do texto, sinto-me confortável a comentá-lo livremente. Os resultados, esses, foram fantásticos. As centenas de milhares de pessoas que leram, partilharam e se riram de quem tentou rir-se delas, constituem motivo de satisfação bastante e repõem alguma justiça na situação. Viva a Internet! Viva a Liberdade e o direito de legitima defesa!

      João de Sousa

      • Caro João,

        Muito obrigada pela sua resposta.
        Partilho da sua satisfação com o resultado embora tenha, como já referi, reservas em relação aos meios usados pois tal como a Catarina aqui referiu acho que existem formas e formas de dar resposta de modo a não nos colocarmos ao mesmo nível do agressor ao usar a “lei de talião” do olho por olho, dente por dente. Por isso mesmo a legítima defesa é justa mas não posso concordar com o “fazer justiça pelas próprias mãos” nem incitar à agressão e apelar a exageros como “morte” e “cianeto” à MRP… De alguma forma (mesmo que retorcida) MRP ao pedir desculpa estará a revelar civilidade e terá como todos o direito a corrigir o mal feito e a apresentar desculpas e sobretudo explicações a quem ofendeu.
        Insisto naquilo que considero um facto: é a lei da procura e oferta que determina o que é publicado e o que não é. É o critério exercido em liberdade pelo público que selecciona quais as editoras, publicações, livros, revistas que sobrevivem e as que não conseguem fazê-lo. Portanto será do público em geral a responsabilidade da escolha entre autores e da sobrevivência da qualidade. É uma responsabilidade da qual temos de tomar consciência e perceber que situações como esta também são consequência das nossas escolhas no momento de comprar ou consumir e que não podemos “lavar as mãos” como Pilatos e acreditarmos que não fomos intervenientes, enquanto sociedade, para promover uns em detrimento de outros, talvez mais capazes, talvez mais talentosos, talvez mais meritórios de serem lidos não por 300.000 pessoas mas por milhões de pessoas.

    • Sim tem toda a razão, mas está a escapar-lhe uma coisa. As pessoas que fizeram a crítica ao texto da MRP não serão certamente (pelo menos a maioria) os leitores dos seus livros, por isso a sua observação de que a “Culpa” de se ler os livros dela é “nossa”, aqui não se aplica nem faz sentido. Serão milhões certamente, por isso é que a nossa sociedade está como está, mas não serão esses que a criticam que a financiarão…e mais quando se escreve, está-se sempre sujeito à crítica. Às vezes simpática, às vezes menos simpática. Se eu for um crítico literário e disser que uma pessoa escreve mal, que não tem conteúdo, que não tem essência e é vazia de inteligência já parece bem? “Quem anda à chuva molha-se” e quem escreve para o público está sempre sujeito à crítica, que seja de que forma for, quando negativa, nunca é simpática. É a vida, e a MRP sabe-o melhor que ninguém. As desculpas ficaram-lhe bem…mas aqui para nós, não acredito que sejam sentidas. Quem escreve e diz aquilo que ela disse, só pede desculpa de ter tornado publico aquilo que pensa, mas nunca do que pensa, porque continua achar-se “a ultima coca-cola no deserto”. O preconceito ficará lá certamente e o snobismo também…O único arrependimento será ter dito alto, aquilo que agora vai ter mais cuidado em calar.

      • Concordo plenamente e por isso referi que a admissão de culpa por MRP será retorcida. É óbvio que quem anda à chuva molha-se, e é obrigatório apontar que um escritor/a escreve mal e não tem conteúdo, que é vazio de inteligência como é obrigatório dizer que é inteligente quando o é. Aliás as críticas são sempre bem vindas, sejam elas boas ou más, simpáticas ou antipáticas, desde que sejam construtivas. Mas um critico literário é um profissional que aufere um pagamento para o seu sustento através das criticas que escreve (daí ser essa a sua profissão) e existe uma forma profissional de fazer crítica que não deve ceder a pressões mesmo que essas sejam no sentido de responder à letra e no mesmo grau e tom das ofensas que foram feitas. Um profissional não tem porque descer de nível pois está munido das ferramentas e da inteligência necessárias para calar e denunciar o preconceito e o snobismo sem trair quem é.
        E é verdade que por serem milhões é que a nossa sociedade está como está. Mas uma luz no escuro é melhor que luz nenhuma e se cada um de nós assumir que pode fazer a diferença poderemos realmente mudar alguma coisa para melhor em prole da qualidade e mérito.

  3. Eu não pretende assumir saber com quem dormem ou deixam de dormir os escritores sérios, nem como chegam onde chegam e sou livre de ler o que me apetece de escritores sérios ou menos sérios. Acho que devia fazer o mesmo…. Acho a sua crónica o reflexo de um pensamento bem “portuguesinho” no seu pior: mesquinho, baixo, pouco sério – ao nível dos comentários e crónicas a que faz alusão no seu escrito…Em minha opinião, creio que deveria aprender a gerir a sua bem evidente “dor de cotovelo” e a sua visão machista em relação ao que designa de Escritorazinha Não conheço a escrita nem acompanho a personagem retratada mas aborrece-me este tipo de escrita que não faz mais do que denegrir os outros. Não há pachorra para pseudo moralistas com complexo de superioridade.

    • Creio que a Catarina não terá entendido que este texto é uma paráfrase e uma resposta a um artigo da Margarida Rebelo Pinto acerca das mulheres gordinhas. O Autor apenas virou, argumento por argumento, a tal inveja de que fala contra a sua própria autora.
      Por isso tudo o que diz no seu comentário é justo, mas destina-se ao artigo que deu origem a este, da autoria da senhora referida, publicado no Semanário Sol, em que tenta humilhar e insultar e ofender outras mulheres. Consciente da infelicidade do seu artigo a senhora já veio a publico apresentar desculpas.

      Aconselho a Catarina a ler o artigo original da autoria da MRP.

      E não, não está desculpada!
      João de Sousa

  4. Não percebeu, Ergoressunt? Olhe que eu percebi muito bem! Será que tenho mais capacidades que o senhor. Por acaso, é uma metáfora bem interessante.

  5. São as Mónicas deste mundo. Sofia de Mello Breyner conhecias-as bem, no seu tempo. E elas continuam… agora já não casadas com um pacóvio rico e amantes do Príncipe deste Mundo, mas acasaladas com os vários Príncipes deste Mundo que continuam a abundar nos lugares de poder e apodrecer tudo à sua volta. Eu sou gordinha e não encaixo nem um pouco no perfil artificial nascido, criado e perecido na cabecinha da Margarida. Devíamos conhecer-nos, para poder ter outra perspetiva.
    http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/texto.html

  6. CONTO POPULAR “A Rainha Literatura e o Palhaço Literário”

    Há muitos e muitos anos, no reinado da rainha Literatura, os súbditos Escritores andavam muito descontentes. Muitas ideias pululavam nas mentes dos Escritores – desde poesia, passando pela prosa, novelas românticas, policiais. Nada agitava os banquetes regados com bom vinho. Os músicos tocavam e, ao som de cítaras, muitos lá declavam um poema de amor. Mas pairava o tédio e a monotonia.
    Todos os dias, os súbditos escritores passaram a reunir-se numa casa anexo perto do palácio, às escondidas da Rainha, para solucionarem o problema. Então, fez-se luz na mente dos súbditos: decidiram fazer um circo, com graciosos palhaços que tocavam trompete e diziam piadas. O palhaço-mor, personagem jogralesca, era uma mulher e seria o auge do espectáculo.
    Certo dia, a Rainha Literatura organizou um banquete para receber altas patentes do mundo Literário e, embora desiludida com a prestação dos seus súbditos Escritores, decidiu, de boa fé, insistir com aquilo que possuía. “Cada um vai à missa com o fato que tem”, dizia.
    O banquete, servido com as melhores iguarias e regado com o melhor vinho, decorreu descontraidamente, entre rasgados sorrisos e uma ou outra gargalhada mais arrojada por parte de um amante do Realismo. Sua Alteza, disfarçando algum espírito de desilusão, estalou os dedos e entraram os súbditos Escritores. Perdão! Entraram os palhaços! Entre atrocidades ao som de trompetes, que lembravam os circos de outrora, e piadas (umas mais arrojadas do que outras), a Rainha Literatura e as altas patentes literárias lá se divertiam, bem aposentados em cómodos cadeirões. Entra o palhaço-mor que, como combinado, seria a “cereja no topo do bolo”. E o palhaço-mor, uma mulher loira, com uns olhos vivaços e um jogo de pernas triglitante, entra em cena para debitar umas piadas. Começa a falar de gordinhas e do porquê as gordinhas serem populares e protegidas, ou seja, poderem fazer tudo e escaparem à crítica mordaz. A noite já ia longa e o vinho fermentava no estômago dos “banqueteiros” e, perante tal actuação, a Rainha Literatura estalou os dedos, os súbditos escritores saíram de cena e entraram os mordomos encarregues de transportar uns recipientes (“vomitódromos”) para quem quisesse vomitar. “Não”, diziam os convidados, “o problema não passa pela qualidade da comida do banquete, estava tudo óptimo, mas aquela mulher loira…”
    A Rainha Literatura, depois do jantar, seguiu para os seus aposentos e deitou-se no seu leito. Não dormiu. Apesar da sua bondade, no dia a seguir a Rainha ditou uma lei: “Todos os atistas, sejam eles escritores, músicos ou palhaços, não gozam do direito de entrar no sensacionalismo barato. Todo aquele(a) que me fizer vomitar num banquete será torturado(a) e a sua língua será cortada.”
    O palhaço-mor, devido à bondade da Rainha Literatura, não lhe foi cortada a língua. Mas o mau estar fazia-se sentir na corte. Todos concordavam: “A língua dela deve ser cortada quanto antes. Queremos uma corte culta, selectiva na arte. Não quremos cá santolas apenas com as cascas. Queremos conteúdo.”
    A mulher loira, era alvo de chacota a toda a hora. E foi baptizada de “palhaço literário”. No entanto, um ou outro membro da corte mais engraçado lá lhe chamava “lixo literário”.

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