Contra-Informação condiciona Opção Política


Em relação à questão dos polícias infiltrados e da participação de alguns no apedrejamento, logo no início, não tenho uma tese; tenho testemunhos e fotos que mostram pelo menos um polícia infiltrado a atirar pedras aos escudos de corpo inteiro que surgiram pela primeira vez. Isso aconteceu num primeiro momento.

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Os factos aqui

Quem atirou a primeira pedra não sei. Sei que isso despertou uma meia dúzia de tipos que passaram a fazer o mesmo. Mais alguns se lhes foram juntando até serem cerca de 30. Isto aconteceu nos 15/20 minutos iniciais. Neste meio tempo, várias pessoas destacaram-se da manifestação, entre elas o Daniel Oliveira, e interpuseram-se entre os que estavam a atirar pedras, garrafas, balões de tinta, etc., e o primeiro cordão policial, com os braços bem erguidos, de costas para a polícia, pedindo aos energúmenos para pararem com aquilo e tentando explicar-lhes a futilidade, falta de significado político e carácter contraproducente do gesto.

Foi aqui que se registaram os primeiros feridos – manifestantes atingidos por projécteis dos apedrejadores. Após um bom bocado de insistência desistiram e deixaram o assunto para a polícia resolver. Por esta altura, havia cerca de 30 polícias infiltrados, do lado esquerdo de quem está virado para a AR, a assistir sem qualquer participação visível nos acontecimentos. Sabemos disto com toda a certeza porque, mais tarde, momentos antes da carga policial passaram para trás do 1º cordão e vestiram os coletes.

A ordem óbvia: política e técnica

Terá sido nesta altura que Miguel Macedo deu a ordem óbvia. Tecnicamente, do ponto de vista da polícia, estava tudo a postos: havia os cerca de 30 polícias à paisana no terreno, que tinham “marcado” os alvos; estava formado um cordão policial avançado, composto por unidades de 3 elementos em fila indiana, a toda a largura da escadaria; atrás desse cordão, a uns 2 metros de distância, estava um segundo cordão policial, também à largura da escadaria, composto por unidades de 2 homens em fila indiana. Esta é a formação típica usada, entre outros, para dar início à “extração” de pessoas em multidões. Como explico no programa Opinião Pública, da SIC Notícias, que pode ver aqui aos 00:00:52 s.

De salientar que, entretanto, os manifestantes pacíficos tinham recuado, criando assim uma considerável clareira semi-circular em torno dos agressores, que simplificava a previsível acção de “extração” e detenção da polícia. Quando é esta a manobra executada, o 1º cordão avança uns metros para fazer recuar a multidão, abre “corredores” entre as unidades pelas quais passam as unidades do 2º cordão que têm a missão de “extrair” os indivíduos previamente “marcados” pelos agentes infiltrados, criando um envolvimento com até 6 unidades que encapsulam os “alvos”, tendo como retaguarda o 1º cordão, o “envolvimento” é realizado pelas unidades do 2º cordão (que ultrapassaram o 1º) e conta com a colaboração activa dos “infiltrados”, que “apontam” os alvos, fazem a detenção e fecham a porta a eventuais tentativas de fuga.

Plano B desautoriza ministro

Foi esta a ordem que o Macedo deu, para ser executada às primeiras provocações. Estas instruções não foram cumpridas porque, entretanto, terá havido uma nova ordem, não se sabe de quem, contrariando as instruções do Macedo e o plano táctico do comandante no terreno, que determinava às forças policiais “Aguenta! Aguenta!”.

O comandante não deve ter achado piada mas obedeceu e, em consequência, os elementos da força policial ficaram debaixo do fogo cerrado de pedras e outros projécteis, durante quase 2 horas, numa super-produção digna de Mr. Cecil B. DeMille, interpretando uma variante com polícias, de um “mix” dos guiões de “Os 10 Mandamentos” com “Sansão e Dalila”. Um espectáculo de martírio, profusamente televisionado pelos canais nacionais de notícias e pela CNN, Reuters e RT, todos em directo.

A carga policial

Ao fim de quase duas horas foi feito o primeiro aviso, que colocava em desobediência todos os manifestantes presentes mas que só podia ser ouvido pelos sujeitos que atiravam pedras, a 2/4 metros de distância, e inaudível para os “pacíficos”. Há um 2º aviso, ainda menos perceptível, e é então que os apedrejadores fogem, os infiltrados mudam de campo e de roupa, e começa a carga policial que se espalharia pelas ruas e becos de S.Bento, por lojas e edifícios, estendendo-se até Santos e Cais do Sodré, fazendo detenções indiscriminadas pelo caminho.

Levaram todos pela medida grande: velhos, mulheres grávidas e com crianças ao colo, raparigas, até um deficiente em cadeira de rodas. As detenções desrespeitaram várias normas, desde o momento da detenção até ao tratamento posterior dado aos detidos: foi detido um jovem com 15 anos – ver aqui; foram detidas pessoas que nem tinham estado na manifestação e desconheciam de todo  que se passava; foram detidas pessoas apenas porque “estavam ali”, já a vários Kms de distância de S. Bento.

Pessoas foram transportadas para edifícios encerrados, como o tribunal de Monsanto, impedidas de comunicar com familiares ou advogados durante várias horas, despidas e revistadas de forma humilhante e acintosa, no meio de ofensas e agressões verbais constantes, obrigados a assinar documentos incompletamente preenchidos sob coacção física e moral, etc. Ver relato impressionante de uma jovem levada para Monsanto aqui.

Os objectivos

Com todo este show mediático o Governo cumpriu três objectivos: dois vitais e um acessório. Comecemos pelo acessório: a brutalidade da repressão constitui uma forma de dissuasão à participação em futuras manifestações dos grupos mais vulneráveis fisicamente: velhos e pais/mães com filhos e cidadãos pacíficos que rejeitam a violência em geral. Quando aos objectivos principais: o primeiro era o de criar e transmitir uma imagem “benévola” e “paciente” da polícia de choque – a última trincheira de defesa da democracia – junto da generalidade dos cidadãos, e a conquista da neutralidade “simpática” da imprensa.

O segundo, e mais importante de todos, era provocar o “apagão” mediático da Greve Geral, dos seus efeitos e resultados; suprimir as entrevistas com descontentes que não tinham podido fazer greve mas concordavam com os objectivos desta, os vox pop, os números por sector de actividade, por região, etc.. Enquanto houvesse violência as televisões não descolariam daí, passando tudo o resto para segundo plano.

Mas visava igualmente o “apagão” mediático do enorme embuste que foi a visita da Merkel. E do carácter patético do seu discurso em que afirmou, contra todas as evidências, que Portugal estava a cumprir as metas: “on track“, como eles gostam de dizer. Como assim? Portugal tinha uma meta essencial para cumprir que era terminar o ano com um défice das contas públicas de 4,5%. Vai terminar com um défice de 6,5%. Onde está o cumprimento?

No preciso punctus saliens do memorandum Portugal falha por parsecs. Como se isso não bastasse, no mesmo dia da greve foram divulgados números oficiais que demonstram que além de falhar naquela que era a sua meta fundamental, o Governo apresenta resultados demolidores para a política que escolheu e que é o cerne da estratégia da Merkel e da Comissão Europeia: o desemprego “oficial” sobe 15,8%; o desemprego jovem aproxima-se perigosamente dos 40%; a recessão cresce para 3,4%; o investimento privado cai; o incumprimento das famílias e empresas aumenta; a confiança dos empresários e das famílias cai; a procura interna diminui e, por fim, aquela que era “a pena no toucado” do Governo – as exportações – também diminuem. Enquanto a dívida externa atinge valores inéditos e insustentáveis, aproximando-se dos 120% do PIB.

Era vital para o Governo secundarizar tudo isto a qualquer o custo nos meios de informação. A catástrofe de proporções bíblicas resultante das políticas de austeridade escolhidas pelo Governo com o beneplácito da Merkel. Sobretudo quando está em discussão na AR um orçamento para 2013, com mais do mesmo, que todos sabem que vai ser um monumental fracasso.

Contra-Informção

Ora, considerações típicas da contra-informação, regra geral apenas usada nas relações externas, levaram à modificação da decisão política do ministro da tutela, e da opção táctica e técnica do Comandante das forças de intervenção.

O primeiro sinal de que algo de estranho e diferente estava na forja, foi dado pelo “tempestivo” e conveniente anúncio, feito pelo ministro, dos aumentos de 10,8% para as forças policiais.

E é isto.

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13 thoughts on “Contra-Informação condiciona Opção Política

  1. Pingback: Receita de Bordoada à Portuguesa – Aventar

  2. foi nojento e revoltante ver os apedrejadores, mas tb foi nojento e revoltantes que a polícia à paisana não tivesse vindo por trás da manifestação e” como não quer a coisa”, não tivesse feito um cordão de ordem que separassem os apedrejadores dos restantes manifestantes e os fizessem parar EM POUCOS MINUTOS, com tranquilidade e calma. A carga polícial a “torto e a direito” não dignifica a Polícia que até à data tem sido compreendida, admirada e elogiada pela população em geral. Os manifestantes pacificos têm que ser protegidos, Não espancados. Ospolicias chegavam para proteger os manifestantes e também proteger um Edifício Público, a Assembleia da República.

  3. Existem pessoas que ainda acreditam no Pai Natal. Nttfão consigo ver as coisas de outra forma.

    São possíveis N teorias sobre o desenrolar dos acontecimentos.
    Mas ao autor que descobriu a pólvora faço algumas questões:
    1 – Foi a Polícia ou o Ministro que destruíram as ATM a passagem da manifestação pela rua garrett e do carmo?
    2 – Foi a Polícia ou o Ministro que causaram os incêndios que se viram?
    3 – Foi a Polícia ou o Ministro que levaram pneus (foram prevenidos) para colocar nas fogueiras para arderem melhor?
    3 – Acha mesmo que algum Comandante iria sacrificar os seus homens daquela forma? É que não os teria a seu lado numa próxima vez.
    Existem outras tantas questões, mas já fico contente se tiver respostas para estas.

    • Respondo apenas à última, porque acho que é suficiente. Os homens estiveram lá, não estiveram? Foram sacrificados durante duas horas. Isso é um facto. Também acho que o comandante não gostou e digo-o no texto. Por isso atribuo a decisão a uma instância política.

  4. Parabéns, excelente post! Parece andar bem informado! É por demais óbvio que, de há alguns anos para cá, se pratica a política da desinformação, da manipulação da informação e , até, estupidificação da população em geral. Basta olhar para a grelha dos canais em sinal aberto, para perceber que apenas passam entretenimento reles e barato… Saber é poder e um povo inculto é fácil de manipular!

  5. O relato faz sentido e é consistente, tanto com outros testemunhos como com as imagens que vi. Só me ficou uma dúvida: como sabe o autor do texto que Miguel Macedo deu a ordem correcta sendo depois desautorizado por alguém que não se sabe quem é? E, tendo sido Macedo desautorizado, como se explica que tenha vindo depois dar cobertura à acção da polícia?

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