Quando mais é menos ou Paradoxo de Zenão, release 2.0


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As sucessivas cisões no Bloco de Esquerda, todas motivadas pelo forte desejo de unidade da Esquerda, aqui há algum tempo sugeriram-me um conjunto de siglas que as novéis organizações poderiam assumir, por acaso todas reminiscentes da capilaridade esquerdista nos anos que antecederam a queda do regime fascista.

Aqui as elenquei, sem grande sucesso ou adesão, apesar da enorme piada derivada da quantidade e delirante imaginação dos seus criadores para inventar acrónimos giros.

Como não fui entendido quando falei a sério, aqui vai o mesmo recado, desta feita com humor, em formato de poesia, onde se explica como dividir pode ser uma maneira de exponenciar.

Xácara das Mulheres Amadas

Quem muitas mulheres tiver,
em vez de uma amada esposa,
mais se afirma e se repousa
pera amar sua mulher;
Quem isto não entender…
em cousas d’amor não ousa,
em cousas d’amor não quer!

Quantas mais, mais se descansa,
mais a gente serve a todas;
quantas mais forem as bodas,
quantos mais os pares da dança,
menos a dança nos cansa
O gosto d’andar nas rodas.

Que quantas mais, mais detido
a cada uma per si;
nem cansa tanto o que vi,
nem fica o gosto partido;
ao contrário, é acrescido
a cada uma per si!

No paladar de mudar
mais se sente o gosto agudo:
que amar nada ou amar tudo
é estar pronto a muito amar;
o enjoo vem de não estar
a par do nada e do tudo.

Mais facilmente se chega
pera muitas que pera uma;
e a razão é porque, em suma,
se esta razão me não cega,
quem quer que muitas adrega
é como tendo…nenhuma!

Com muitas, descanso vem,
faz o desejo acrescido:
que é o mais apetecido
aquilo que se não tem;
e o apetite é o bem;
e em saciá-lo é perdido.
Também a mulher que tem
seu marido repartido
é mais gostosa do bem
que advém de seu marido!

Tão gostosa e recolhida,
tão pronta e tão conformada,
quanto o gosto é não ter nada;
porque o gosto é ser servida
e não o estar contentada.
O gosto é coisa corrente,
e quem o tem já não sente
o gosto dessa corrida,
que tê-lo, é cousa … jazente…
que tê-lo , é cousa… perdida!

Ora, pois, nesta jornada
não vi nada mais de amar
que ter muito por chegar
e cousa alguma chegada;
não vi nada mais de ter…
que ter muito que perder…
e cousa alguma ganhada!

Mário Saa, in ‘Cancioneiro do I Salão dos Independentes’

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One thought on “Quando mais é menos ou Paradoxo de Zenão, release 2.0

  1. Excelente “recado” em sátira poética!!! 🙂
    Esses tais “personagens” quanto mais têm, mais querem…e acabam por não terem absolutamente nada!
    É o que faz, o “prazer” da ambição desmedida do Poder…o vislumbre do NADA!

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