A detenção de Sócrates


gilmar-mendes-diploma-de-jornalismoFinalmente o “jornalismo” que se vai praticando por cá atingiu o seu grau Zero. A cobertura da detenção de Sócrates é disso exemplo gritante que até teria piada se não fosse trágico.

O exercício do “contraditório” mudou-se para a disciplina “Arqueologia do Jornalismo”. A verificação da informação das “fontes” travestiu-se” em eco interminável das declarações, nunca fundamentadas, do Sol, da Felícia Cabrita e do Correio da Manhã. Cenários foram submetidos a comentário como se de factos se tratassem. Da obsessão paranóica da Manuela Moura Guedes à ignorância absoluta sobre Processos Judiciais, de tudo tivemos um pouco.

Na RTP i, por exemplo, uma pivô insistiu horas a fio no uso da expressão: “… de que José Sócrates está acusado” e “… as acusações contra José Sócrates”. Ora José Sócrates, ainda hoje, não está acusado de nada. Ontem estava indiciado ou era suspeito. No nosso peregrino direito processual penal os suspeitos são indiciados, detidos, interrogados e constituídos arguidos, submetidos a medidas de coacção pelo Juiz de Instrução e, só então, o Ministério Público irá produzir a acusação, dispondo de um prazo variável para o fazer, em regra até um ano. Durante esse ano o arguido pode estar preso sem acusação. Isto é: prende-se primeiro e investiga-se depois.

Os jornalistas deviam lutar pela defesa dos Direitos, Liberdades e Garantias, pela Cidadania, contra os abusos de poder, praticados sobre quem quer que seja. Optaram por juntar-se à “turba ululante”, sedenta de sangue, justicialista, “vigilante”… ao comité de pudicos e virgens ofendidas, defensores de uma moral “apenas para exportação”, adeptos da Lei de Lynch.

É triste! É perigoso! É trágico e será, presumivelmente, fatal para a profissão.

JS

Adenda

Liaisons Dangereuses entre Política, Justiça e Culinária

Revelam-se quando a Política se serve da Justiça para “confitar” um cidadão durante vários anos e a certa altura decide “gratiná-lo”.

Este é um pensamento filosófico, “consequência de estar mal-disposto”. Qualquer semelhança com factos ou personalidades da vida real é pura coincidência.